Os clientes surgem possuídos por um espírito natalino estranho, aquele que mistura pressa, culpa e zero empatia. Querem presente barato, bonito, de qualidade premium, com desconto, embalagem grátis e, se possível, que venha com um pedido de desculpas pelo atraso deles. E claro: tudo isso cinco minutos antes de fechar. Porque o nascimento de Cristo combina perfeitamente com desrespeitar horário de funcionário.
As filas crescem, o sistema cai, o cartão não passa, o PIX demora, a criança chora, o adulto também (por dentro). Você sorri. Sempre sorri. Porque no comércio, o sorriso não é expressão facial — é equipamento de segurança obrigatório.
O corpo vai dando sinais claros de colapso: pernas inchadas, coluna fazendo barulho de porta velha e uma alma que já pediu demissão, mas o corpo ainda não foi avisado. O café já não faz efeito, o almoço virou lenda urbana e o descanso é um conceito abstrato estudado apenas em livros de filosofia.
E então, depois de tudo isso, vem o grande reconhecimento da empresa. O ápice. O prêmio máximo. O troféu da dedicação: um panetone e uma Sidra Cereser. Não é qualquer panetone. É aquele que pesa mais no simbolismo do que no recheio. E a Sidra… ah, a Sidra Cereser, a bebida oficial do “não podemos dar aumento, mas pense com carinho”.
É quase poético: você vendeu centenas de sonhos parcelados em 10x sem juros e, em troca, ganha um panetone que dura até fevereiro e uma sidra que só alguém realmente corajoso abre fora do Ano Novo. É o capitalismo dizendo: “Feliz Natal. Não bebe tudo hoje, guarda pra comemorar que sobreviveu.”